Perdi um paciente. Talvez o certo seja dizer que precisei abdicar dele, achei melhor deixá-lo ir. Disse para família algo na linha de “acho que vocês serão melhor atendidos por outro profissional, mais alinhado com as expectativas de vocês”. Nunca tinha dito isso antes, não foi fácil. Obviamente não era o que eu gostaria. Tenho carinho pela família, já tinha acompanhado a irmã mais velha, achava a criança um encanto. Mas confesso que não me vi com outra opção; nada que contemplasse simultaneamente o desejo deles e o meu entendimento profissional.
Não sairíamos daquele impasse – a mãe querendo um diagnóstico, eu dizendo que não o daria. Não porque não houvesse um problema, havia. Não era negação do médico, nem alucinação da mãe. Ocorre que nem todo problema significa diagnóstico. Não havia critérios para nenhum diagnóstico neste ponto da vida – aos 5 anos de idade.
Vamos aos fatos.
O “diagnóstico” que ela queria que eu desse, já em si, é grande parte do problema. Altas habilidades – que não é um diagnóstico propriamente dito. Vou me valer da linha de raciocínio e do levantamento minucioso feito pelo colega e amigo Arthur Caye, que escreveu com muita elegância sobre o tema, para destrinchar um pouco dessa confusão reinante sobre AH.
Primeiro ponto. Existe, definitivamente, uma coisa chamada capacidade cognitiva ou habilidade cognitiva. Ela é mensurável por testes padronizados, amplamente disponíveis – os famosos “testes de QI” (os mais comumente usados no Brasil são o WISC, o Columbia e o Raven). Esses “testes de “inteligência” medem um conjunto de fatores ou componentes que estariam por trás da inteligência – coisas como percepção visual, conhecimento verbal, memória de trabalho, velocidade de processamento – índices que compõem, ou comporiam, o constructo maior chamado de inteligência.
Exemplo de tarefa de construção com blocos, na qual a criança deve reproduzir uma configuração espacial a partir de um modelo visual.
O resultado do teste de QI é um escore, um número, que, como a pressão arterial e a altura de uma pessoa, é um traço dimensional, ou seja, haverá pessoas com alta, média e baixa: pressão, estatura e capacidade cognitiva. Aquelas com capacidade cognitiva muito alta, muito acima da média (de preferência, dois desvio-padrão acima) fariam jus ao rótulo altas habilidades cognitivas.
Existe uma outra coisa, relacionada mas não igual, chamada superdotação. Esta, por sua vez, é uma classificação educacional: é uma forma de identificar alunos que – tendo alta capacidade cognitiva – podem se beneficiar de adaptações curriculares, como enriquecimento, aceleração ou maior complexidade do seu programa de aprendizagem. É uma medida administrativa, prática e útil, que separa aqueles alunos que precisam dessa diferenciação. Até aí tudo certo: crianças com superdotação se beneficiam, de fato, de receber um tratamento diferenciado que torne a escola pra elas tão estimulante e desafiadora quanto é (ou deveria ser) para as demais crianças.
O problema surge com uma terceira ideia: a de superdotação ou altas habilidades como “síndrome”. A ideia de que crianças com altas capacidades cognitivas ou superdotação teriam um conjunto de características emocionais, sensoriais ou comportamentais associadas ou decorrentes de sua alta capacidade intelectual. Como se uma coisa implicasse na outra. Como se a justificativa para as dificuldades emocionais ou comportamentais ou sensoriais fosse a cognição elevada.
Não existe, na literatura científica, um fenótipo psicológico consistente da criança superdotada. Características frequentemente atribuídas a ela — intensidade emocional, hipersensibilidade, perfeccionismo, “assincronia” do desenvolvimento, preocupações existenciais ou sensibilidade sensorial — não ocorrem de maneira suficientemente estável e generalizável. Não é verdade que essas crianças são assim, não é um padrão natural. Revisões sistemáticas não encontram um padrão consistente de maior psicopatologia nas pessoas que têm um funcionamento cognitivo superior. Esse é o ponto nevrálgico.
Especula-se – e eu acredito fortemente nisso – que o motivo dessa aparente associação é que as crianças que chegam a clínicas especializadas de neuropsicologia ou neurologia ou psiquiatria infantil, chegam porque tem esses problemas, não porque tem QI alto ou algum talento específico, seja na música, nas ciências ou nos esportes. Elas não são uma amostra aleatória da população de pessoas com QI alto — elas são o subgrupo das pessoas com QI alto que, infelizmente, às vezes, tem problemas.
Essas crianças geralmente são trazidas porque estão ansiosas, agitadas, entediadas, isoladas, em conflito com a escola ou apresentando dificuldades diversas de ordem emocional, social, comportamental. O perigo reside em querer colocar uma tampa (ou estampa?) nessas dificuldades e rotular tudo sob o prisma das altas habilidades. Não acho que isso ajuda, mas também nunca fui muito de me ater aos rótulos.
Mas confesso que ando repensando isso.
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No último texto, eu disse que ia falar sobre horóscopo, não esqueci. Eu, que não acredito em quase nada, muito menos no zodíaco, tenho pensado muito sobre como essa tradição místico-mitológica ajuda a entender a forma como as pessoas vêm usando rótulos ou categorias diagnósticas para entenderem a si mesmas hoje em dia.
Seja TDAH ou Sagitário, a categoria passa a funcionar como uma lente através da qual a pessoa interpreta a si. “Eu sou impulsiva porque sou TDAH” passou a soar como “Eu sou teimosa porque sou de touro”. Eu sou desse time, você me entende? Sou assim por algum tipo de configuração que não escolhi e sobre a qual não tenho controle. Bem ou mal, a pessoa passa a enxergar e analisar as próprias atitudes a partir de um signo.
Tenho escutado que isso tem um efeito positivo, libertador. Ao colocar as lentes do rótulo ou categoria e olhar para o passado, posso me perdoar, me reconciliar comigo mesmo. Mais do que isso, olhando para frente, o enquadramento – mesmo que por autodiagnóstico – parece ajudar a eliminar sentimentos culpa, promover aceitação e a possibilidade de ser mais gentil consigo mesmo. Além da sensação de pertencimento (“não sou só eu que sou assim, tem um batalhão de gente como eu”), surge um alívio por, finalmente, ter uma explicação para dificuldades que antes pareciam defeitos vergonhosos, fonte inesgotável de autocrítica e autopenitência.
Mas, e as crianças? A onda de autodiagnóstico via TikTok me parece particularmente preocupante quando envolve esses seres em desenvolvimento, para os quais um enquadramento precoce (ainda mais na categoria errada) pode funcionar como uma autoprofecia: “Não sou bom em fazer amigos porque sou autista”, “Não consigo estudar porque tenho TDAH.” Um futuro moldado — ou ceifado — por um rótulo, potencialmente falso.
Onde antes se falava em desorganizado, dramática, estranho, hoje se diz TDAH, ansiedade, autismo, trauma, altas habilidades. Essa nova linguagem talvez carregue menos estigma e mais aceitação, oferecendo a cada um de nós a possibilidade de adquirir o seu mapa astral, que leve a um caminho mais saudável para lidar com os nossos problemas. Ao invés de pensar “sou preguiçoso” ou “sou irresponsável”, vamos diligentemente dizer que precisamos trabalhar nas nossas “funções executivas”.
O julgamento moral foi substituído pelo diagnóstico e o diagnóstico virou identidade. O perigo maior, receio, reside na simplificação. Usar a categoria diagnóstica como container para tudo aquilo que não cabe em si, tudo aquilo que parece demais. O rótulo simples encerra tudo em si, dá fechamento, coloca uma tampa e permite que o indivíduo se agarre numa explanação mais fácil e menos ameaçadora, retirando o espaço para pensar em conflitos, raiva, culpa, relações familiares ou outras coisas que incomodam e geralmente estão na origem de diferentes sintomas.
Como vamos sair dessa eu não sei. Não tá escrito nas estrelas.






Acabei de receber a postagem de hoje, e vi que havia perdido a do dia 02/09…. Ahhhh que saudade que estava de ler tuas reflexões! Obrigada por tanto 🥰