Charlatanice
O negócio da esperança: como vender soluções fáceis (e naturais) para problemas complexos (e multifatoriais)
Pouca coisa me tira tanto do sério quanto charlatanice. Nunca sei se o que está por trás é má-fé, ignorância, oportunismo, espertalhice, falsa crença, ingenuidade científica ou malandragem. Pouco importa. Me aborrece profundamente ver as pessoas sendo dragadas para um poço de falsas esperanças que servem apenas para fins comerciais, que retardam soluções, que desviam recurso de tratamentos importantes e que não passariam no mais lato e flexível crivo científico.
Confesso que eu sinto quase um ódio quando descubro que meus pacientes caíram nas mãos de algum vendedor de promessas. Preciso me esforçar para não transparecer o quão incomodada eu fico só de ouvir falar – em estimulação magnética, protocolo blablaba, neurofeedback – essas tretas que o instagram oferece para pessoas desesperadas por uma solução.
Prefiro ouvir falar em passe, cura espiritual, mandinga ou macumba do que em salvação pelo canabidiol ou esperança em fórmulas manipuladas com GABA via oral.
Eu não sou xiita de achar que precisa ter evidência científica para tudo nessa vida, mas não dá para aceitar como normal esse mercado do autismo, que explora sem dó nem piedade o desespero das famílias. São vendas de produtos e soluções — geralmente na linha “natural” — que não estão ancoradas em nada, nada, nada.
B-A-L-E-L-A.
[Me desculpem o mau humor. Tô ranzinza e de saco cheio.]
Eu queria deixar uma sugestão para quem é pai e mãe em modo-desespero: consultem a inteligência artificial. ChatGPT, Gemini, Claude. De verdade. Façam isso. Perguntem se funciona, qual é a evidência, se tem sentido fazer esse ou aquele “tratamento”. Sem sombra de dúvidas, a opinião dela é mais certeira do que a de muito franco atirador que está por aí. Na imensa maioria das vezes ela estará certa. Se quiserem uma base médica de IA, tem o OpenEvidence.
Feito o desabafo, quero falar de uma queixa que ouvi hoje da voz de uma menina TEA de 11 anos. Ela tava se queixando que “psicólogo não serve pra nada”. Que nunca ajudam. Que ela sofria bullying na escola e eles só diziam para ela ignorar. E que isso não ajuda.
Foi bonito ver a forma, firme, como ela se posicionou, fazendo questão de me dizer o que sentia e pensava. Ela me disse que não gostava de tomar remédio; respeitei. Fizemos um plano de retirada do que ela vinha usando, mas deixei o caminho aberto para outras opções, devolvendo pra ela a pergunta “No que você acha que precisa de ajuda?”.
Diferente dos multi-duper-uper suplementos e vitaminas orais que supostamente vão modificar o cérebro se algum dia conseguirem cruzar a barreira hemato-encefálica e parar na cabeça antes de sair no xixi, eu acho que psicólogo pode funcionar super bem sim.
Concordo com ela, às vezes, eles são inúteis e não conseguem ajudar. Isso acontece de fato. Geralmente, é porque faltou técnica, faltou adaptação adequada de scripts e protocolos para lidar com alguém do espectro. TCC de TEA não é TCC de neurotípico. Exige muita adaptação, muito preparo, muita mão e experiência. Não é coisa para amador.
Mas eu acho que vale insistir e não desistir. Tenho dificuldade de imaginar alguém que é do espectro – que tem uma vida sempre tão cheia de ajustes a fazer, papéis a cumprir, coisas a tolerar – e não tem indicação de alguma forma de psicoterapia, desde ABA até psicanálise. Cada caso precisa de uma ajuda específica. [Agora, dito isso, caramba! Como é difícil encontrar profissionais especializados nessa área que tenham o pacote completo: ética, sensibilidade, responsabilidade e competência.]
Espero que o coelhinho 🐰 seja bom com vocês e traga uma páscoa com muita serotonina no chocolate 🙄🤡.



